Praticabilidade no Primavera P6: por que uma jornada de 9 horas não representa 9 horas produtivas
Uma jornada de trabalho de nove horas significa nove horas de produção?
Na maioria das obras, não.
Embora a jornada contratual possa estabelecer nove horas de permanência diária, apenas uma parcela desse período é efetivamente utilizada na execução dos serviços.
Parte do tempo é consumida por atividades necessárias à operação, como:
- Diálogos de segurança
- Liberação de frentes
- Deslocamentos internos
- Troca de turno
- Busca de ferramentas
- Preparação de equipamentos
- Intervalos
- Deslocamento para refeições
- Retomada após o almoço
- Encerramento da jornada
Além disso, atividades externas podem ser afetadas por chuva, umidade, temperatura e condições de acesso.
Quando esses fatores não são considerados, o cronograma pode apresentar datas que dificilmente serão cumpridas.
É por isso que a praticabilidade deve fazer parte do planejamento e da configuração dos calendários do Primavera P6.
O que é praticabilidade no planejamento de obras?
A praticabilidade é um estudo utilizado para estimar a quantidade de horas produtivas realmente disponível ao longo do tempo.
Ela considera a diferença entre a jornada nominal e o período efetivamente utilizado na produção.
Também avalia fatores que reduzem ou interrompem o trabalho, como:
- Atividades administrativas
- Rotinas de segurança
- Deslocamentos
- Perdas operacionais
- Períodos chuvosos
- Condições do solo
- Tempo necessário para retomar os serviços
O objetivo é criar um cronograma mais próximo da realidade do empreendimento.
Por que a produtividade diária deve ser calculada?
Imagine uma equipe com jornada programada de nove horas.
Depois de considerar segurança, deslocamento, intervalo para refeição e demais rotinas, a disponibilidade produtiva pode ser significativamente menor.
Em um único dia, essa diferença pode parecer pequena. Entretanto, quando multiplicada pela duração de um projeto de um ou dois anos, seu impacto pode ser expressivo.
O cronograma que considera nove horas produtivas por dia tende a programar mais trabalho do que a equipe realmente consegue executar.
Como consequência, surgem:
- Atrasos recorrentes
- Metas incompatíveis
- Necessidade constante de reprogramação
- Conflitos entre planejamento e produção
- Perda de confiança no cronograma
- Aumento dos custos indiretos
A praticabilidade procura antecipar esse problema.
O conceito de Wrench Time
Um dos elementos utilizados nesse estudo é o chamado Wrench Time, ou tempo efetivamente produtivo.
O conceito representa a parcela da jornada em que o trabalhador está diretamente executando o serviço planejado.
Para calcular esse tempo, o planejador precisa compreender detalhadamente a rotina do projeto.
Algumas perguntas importantes são:
- A que horas o trabalhador entra na obra?
- Quanto tempo é destinado às rotinas de segurança?
- Qual é a distância até a frente de serviço?
- Quanto tempo é gasto na mobilização de ferramentas?
- Como funciona o deslocamento para o almoço?
- Quanto tempo é necessário para retornar à atividade?
- Existem filas, controles ou liberações de acesso?
- Quanto tempo é gasto no encerramento da jornada?
Essas respostas variam de projeto para projeto. Por isso, o estudo não deve ser baseado apenas em um percentual genérico.
O impacto do deslocamento
Em grandes empreendimentos industriais, o deslocamento pode consumir uma parcela relevante da jornada.
Uma equipe pode gastar vários minutos para chegar ao refeitório, cumprir o intervalo e retornar à frente de serviço.
Caso o trabalhador leve 30 minutos para chegar ao local da refeição, permaneça uma hora no intervalo e gaste mais 30 minutos no retorno, duas horas da jornada estarão associadas ao almoço e aos deslocamentos.
Quando essa realidade não é considerada no planejamento, o calendário superestima a capacidade produtiva.
Como a chuva afeta o cronograma?
A precipitação não impacta todas as atividades da mesma forma.
Serviços de terraplanagem, escavação, fundações e infraestrutura podem sofrer forte influência das condições climáticas.
A montagem eletromecânica realizada em área coberta pode ter um impacto muito menor.
Por isso, o estudo de praticabilidade deve considerar:
- Histórico pluviométrico da região
- Meses mais chuvosos
- Tipo de atividade
- Exposição da frente
- Condição de acesso
- Sensibilidade dos materiais
- Necessidade de recuperação da área
A partir dessas informações, o planejador consegue estimar uma quantidade mais realista de horas disponíveis em cada período.
O fator de retomada
O impacto da chuva não termina necessariamente quando a precipitação para.
Em determinadas atividades, existe um período adicional antes que o trabalho possa ser retomado.
Esse período é conhecido como fator de retomada.
Na terraplanagem, por exemplo, pode ser necessário aguardar a melhoria das condições do solo, realizar drenagem, recompor acessos ou refazer serviços comprometidos.
Em atividades civis, o efeito pode ser menor, mas ainda assim relevante.
Na montagem eletromecânica, principalmente em áreas cobertas, a retomada tende a ser mais rápida.
Portanto, cada disciplina pode possuir um fator de retomada diferente.
Por que não utilizar apenas um calendário?
Um dos erros comuns em cronogramas industriais é atribuir o mesmo calendário a todas as atividades.
Infraestrutura, civil, montagem eletromecânica e trabalhos realizados em galpões fechados não possuem necessariamente a mesma disponibilidade produtiva.
Um cronograma pode precisar de diferentes calendários para representar:
- Terraplanagem
- Infraestrutura
- Construção civil externa
- Construção civil interna
- Montagem eletromecânica externa
- Montagem eletromecânica coberta
- Atividades administrativas
- Comissionamento
Em muitos projetos, podem ser necessários quatro, cinco ou seis calendários diferentes.
A quantidade depende da estratégia de execução e das condições do empreendimento.
Como levar a praticabilidade para o Primavera P6
Depois de calcular as horas produtivas e os fatores de impacto, essas informações precisam ser incorporadas aos calendários do cronograma.
O planejador poderá configurar jornadas diferentes de acordo com:
- Disciplina
- Período do ano
- Tipo de ambiente
- Exposição à chuva
- Regime de trabalho
Nos meses mais chuvosos, determinadas atividades podem possuir uma disponibilidade diária menor.
Nos meses mais secos, o calendário poderá permitir uma quantidade maior de horas produtivas.
Dessa maneira, o Primavera P6 calcula as datas considerando uma capacidade mais realista.
A praticabilidade pode alterar significativamente o prazo
Em um exemplo apresentado na transcrição, um projeto inicialmente calculado com duração aproximada de um ano foi reavaliado após a aplicação da praticabilidade.
Ao incorporar perdas da jornada, influência da chuva e fatores de retomada, a duração calculada passou para aproximadamente um ano e sete meses.
O exemplo demonstra como premissas excessivamente otimistas podem ocultar meses de impacto.
Isso não significa que todo projeto sofrerá a mesma alteração. Cada empreendimento possui características próprias.
Entretanto, mostra que ignorar a disponibilidade produtiva pode gerar um cronograma incompatível com a realidade.
A praticabilidade não cria o atraso
Quando o prazo aumenta após a aplicação de premissas realistas, a praticabilidade não está criando um problema.
Ela está revelando antecipadamente uma condição que já existia.
Sem esse estudo, o empreendimento poderia iniciar com um prazo aparentemente menor e, ao longo da execução, acumular desvios considerados inesperados.
Com a análise realizada no planejamento, o impacto passa a ser conhecido e pode ser discutido antes da mobilização.
A equipe pode, então, avaliar alternativas como:
- Alteração da estratégia construtiva
- Aumento das equipes
- Trabalho em turnos
- Proteção de frentes
- Mudança na sequência
- Priorização de atividades externas no período seco
- Pré-montagem
- Industrialização
- Utilização de áreas cobertas
Por que esse conhecimento é importante para o engenheiro de planejamento?
O engenheiro de planejamento não deve apenas inserir uma jornada padrão no software.
Ele precisa compreender como o trabalho realmente acontece.
Isso exige interação com:
- Produção
- Engenharia
- Segurança
- Logística
- Suprimentos
- Supervisores
- Empresas contratadas
Ao reunir essas informações, o profissional consegue construir um cronograma mais defensável, executável e útil para a gestão.
Esse é um dos motivos pelos quais um Treinamento P6 deve ir além dos comandos do sistema.
O Primavera P6 como ferramenta de modelagem da execução
O Primavera P6 realiza os cálculos de acordo com as premissas inseridas.
Se o calendário considera nove horas produtivas por dia, o sistema utilizará essa disponibilidade, mesmo que a obra consiga produzir durante apenas sete horas.
Portanto, a precisão do cronograma depende da qualidade dos dados e do conhecimento técnico do planejador.
O software não substitui a análise de construtibilidade. Ele potencializa essa análise quando é corretamente configurado.
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